Violência Doméstica – Informação:
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Chegamos ao local num carro sem identificação. A equipa técnica recebe-nos e as crianças vêm logo atrás, curiosas. Mostram onde vamos dormir, num quarto com casa de banho, igual aos de todas as famílias acolhidas. Vinte metros quadrados para uma cama, um beliche, uma secretária, um roupeiro.
É um lugar repleto de histórias de sofrimento, mas logo no primeiro dia testemunhamos uma festa de aniversário. Os aniversários das crianças são sempre assinalados, pois é preciso contrariar a tristeza e cultivar a alegria…
Uma menina faz 5 anos e escolheu o unicórnio como tema. As crianças estão animadas, as mães não estão menos. Azáfama a enfeitar a mesa, a colar balões, a pôr os chapéus nas cabeças.Depois do jantar, é o parabéns a você. 'Beatriz', 29 anos, está emocionada: "Como eu nunca tive nada disto, gosto que os meus filhos tenham. Só a carinha dela a distribuir o bolo e os sacos das gomas aos coleguinhas…"
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Depois de terem que abandonar o lar e os lugares conhecidos, têm que se adaptar a regras e a um novo quotidiano. Nestes lugares de passagem, as mulheres percebem que as suas vidas têm muitas coisas em comum. E acabam por criar uma espécie de irmandade.
A rede nacional de apoio a vítimas de violência doméstica tem 26 centros de emergência e 39 casas abrigo no continente, Açores e Madeira (destas, uma é para homens vítimas, outra para vítimas com deficiência).
No final de 2025, segundo a Comissão para Cidadania e Igualdade de Género, havia 1.349 pessoas acolhidas: 705 mulheres, 623 crianças e 21 homens.
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Depois de terem que abandonar o lar e os lugares conhecidos, têm que se adaptar a regras e a um novo quotidiano. Nestes lugares de passagem, as mulheres percebem que as suas vidas têm muitas coisas em comum. E acabam por criar uma espécie de irmandade.
Todos os anos, a violência doméstica motiva 30 mil queixas nas forças policiais - é o crime contra pessoas mais participado. Mas, ainda assim, a realidade continua escondida, dentro de quatro paredes. É muito difícil cortar com uma relação violenta - seja por envolvimento, por medo, por culpa, por vergonha, por falta de autoestima.
Madalena, Ana, Cláudia, Constança, Sofia, Lúcia, Beatriz - são os nomes que escolheram. As identidades são preservadas. Já as histórias põem a nu um país.
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Para o genérico escolhemos “A mulher batida”, escrita por A Garota Não. Os Orelha Negra fizeram a música e, em 2021, desafiaram a compositora a pôr-lhe letra. O retrato que se desenha na canção é em tudo semelhante aos episódios contados pelas mulheres que encontrámos nas casas de abrigo. Fizemos uma proposta à Garota Não, que aceitou e nos recebeu em casa, interpretando uma versão acústica para a reportagem.
Vários músicos, sobretudo compositoras, têm abordado o tema. Em 8 Março de 2024 Capicua lançou “Que força é essa, amiga”, mudando a letra da canção-ícone de Sérgio Godinho. Em Novembro de 2025, assinalando o Dia para a Eliminação da Violência contra Mulheres, Carolina Deslandes publica “Feia”, falando das “loucas” e “feias” que não se conformam e dos discursos de ódio que geram retrocessos. Num tom mais lírico, Manel Cruz construiu também em 2019 uma canção de combate: “O navio dela”. “A minha mulher não é minha, é da cabeça dela”, assim começa a desenrolar a letra e “os fantasmas que aprendeu a desmontar”. Lirismo e assertividade, óptima banda sonora para um remate de reportagem.
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As crianças e adolescentes deixam uma enorme marca nos dias que vivemos de reportagem. Desde logo porque são muitas e agitam a casa de manhã à noite. Na última década foram acolhidas 30 mil pessoas nas casas abrigo do continente, Madeira e Açores. Dessas, 42% - quase metade - são crianças.
Muitas têm dificuldades na escola, transtornos de ansiedade, hiperatividade, défice de atenção ou desenvolvimento. Na casa abrigo é providenciado apoio técnico e médico que intervém sobre os traumas. O ambiente mais livre e sem violência ajuda também muito. E no espaço de meses é possível notar grandes progressos, como relatam as mães, cheias de orgulho.
Apesar das histórias de sofrimento e terror há disponibilidade, a frescura infantil, a gargalhada pronta a sair, o riso ao pé do choro. E é tão fácil diverti-las. O projector que levámos para as entrevistas serviu para muito tempo de brincadeira. Luz na parede e logo se improvisaram jogos de sombras.
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O isolamento - afastar dos amigos, família, colegas de trabalho. O escalar da violência - comentários desagradáveis ou insultos que sobem de intensidade ou derivam em agressões físicas. A culpabilização do outro - como se a vítima fosse sempre a responsável pelo eclodir do conflito. As desculpas recorrentes - as flores, o jantar, o choro depois das explosões violentas, até a um novo episódio de violência.
É também muito comum as vítimas terem tido infâncias difíceis, marcadas pela violência. É o que nos conta o relato de "Beatriz", 28 anos.
E esse passado pode ser uma fragilidade: ao não conhecer outra vida, outros exemplos, enredam-se mais facilmente em relações conjugais violentas.
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Também foram reforçadas algumas medidas de coação com caráter urgente, como obrigar o arguido abandonar a morada de família e restringir provisoriamente o exercício de responsabilidades parentais e os contactos com os filhos.
Alterações que surgiram depois de vários alertas de peritos e com o objetivo de o Estado português cumprir as diretivas comunitárias e as convenções internacionais que subscreveu. Porém, a prática mostra que na maioria dos casos os juízes não aplicam estas medidas de coação urgentes, nomeadamente aquela que prevê o afastamento do agressor da casa de família. Na quase totalidade dos casos as vítimas é que são obrigadas a deixar para trás a casa e as comunidades onde estão inseridas.
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O emprego e a habitação são os principais desafios. Atualmente é sobretudo o encontrar de casa, e de uma casa que as mulheres com crianças a cargo possam pagar. As vítimas de violência doméstica têm prioridade na atribuição de casas do Estado, por exemplo. Mas há outras situações com prioridade legal (cidadãos com deficiência, sem-abrigo, etc.) para muito poucas casas públicas.
Ainda assim - e isso foi muito marcante na reportagem - há força, vontade e esperança na voz e no rosto destas mulheres.
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